Humberto França , Brasil
| Um mestre argentino |
| Além da excelência de sua própria obra, Horácio Castillo traduziu com perfeição alguns dos maiores poetas gregos |
Por Humberto França
A tradição da crítica literária argentina caracteriza-se por um rigor à altura das grandes obras que se têm produzido naquele país. O destacado reconhecimento da poesia e das traduções de Horácio Castillo, por parte de críticos notáveis, torna-se uma credencial, embora dispensável para um poeta do seu quilate.
A partir do seu trabalho de tradutor, Castillo alcançou uma rara competência que talvez seja concedida apenas a grandes poetas, ao conseguir excelentes aproximações na tradução dos versos dos mais importantes poetas gregos da modernidade.
A tradução de uma grande poesia requer uma habilidade próxima da perfeição no domínio de uma língua, exigindo uma espécie de transmigração literária do que se encontra magicamente interpenetrado na linguagem de autores de obras soberbas. Esta é a façanha que esse poeta-tradutor, nascido em Enseada, Argentina, em 1934, alcança, ao transportar para a língua espanhola a obra de Constantino Kavafis, mantendo a rara sincronia musical do demótico, a língua grega moderna.
A lapidar tradução de obras de poetas gregos por Horácio Castillo encontra-se, no Brasil, ao lado do trabalho de José Paulo Paes e de Jorge de Sena, em Portugal, numa peleja para trazer à língua portuguesa a riqueza melódica e paradigmática daqueles versos.
O escritor argentino também traduziu as obras de Odysseas Elytis, e apresentou, na língua de Borges, a poesia de angústia existencial de Giórgios Séferis, ambos ganhadores do Prêmio Nobel. Os versos de Yánnis Ritsos e os de Takis Varbitsiotis também mereceram o seu esmerado tratamento literário. Esses poetas formariam, desde os primórdios da Grécia moderna, um movimento que possibilitou a ressurreição da língua grega, após o seu longo adormecimento. Desde o século 19, os esforços de escritores como Dionýsos Salomós, o poeta nacional da Grécia, e no século 20 com Palamás, Várnalis, Ouránis, Karyotákis e Randós, e o ficcionista Karantzákis, autor de Zorba o Grego, ajudaram a Grécia a se levantar como nação, cujo espírito se substanciava no cumprimento dos gregos com a sua língua sempiterna, que em si conservou a fortaleza onde eles encontrariam a sua identidade, depois de quase dois milênios de inexistência política.
A obra poética de Horácio Castillo, embora não seja “orientada para o grego”, como ele assevera, bebe a seiva da tradição greco-latina. Há ligações entre a sua obra e os poemas históricos de Constantino Kavafis, que também se nutria do “Grande despojo da Antiguidade”, salvado da avalanche que foi a nova religião semítica que nos legou sublimidade, mas, também “as raivas de um deus provinciano”, antropófobo e tirânico. A poesia de Castillo transpira grecidade pela sua temática e linguagem lírica, exigente na espontaneidade, ultrapassando-se num discurso que, vencendo o “resplendor do trivial”, alça-se para tocar os domínios da metafísica. A sua trajetória se inicia em 1971, com o livro de estréia Descripción, prosseguindo até o seu mais recente A Música de Vítima, do qual destacam-se poemas de estremecedora beleza, como: “O Peito Branco, o Peito Negro”, permeado, talvez, em nuanças da psicanálise kleiniana. No poema “Na Coxa do Deus”, observa-se uma reinvenção ao tema edipiano. Em “Epigrama”, encontro um possível diálogo dos seus versos com o poema de Ovídio “O Poder da Poesia”. Os seus temas igualmente acercam-se do testemunho místico de Tereza D’Ávila e de San Juan de la Cruz, sem no entanto se abismarem no religioso.
Influenciado desde a adolescência pela leitura de Hölderlin, que o apresentou à literatura clássica, Castillo reinterpreta essa tradição, afastando-se dos seus excessos e das vertigens teóricas em torno da poesia, para produzir uma linguagem medida por um contumaz encontro com a beleza.
Os demais livros da sua contida produção, Tuerto rey (1971), Los Gatos de la Acrópolis (1998), La Casa del Ahorcado. Obra Poética 1974 – 1999, Antologia Poética (2000), Mandala e por un poco más de Luz. Obra Poética 1974 – 2000 (2005), se completam com uma ensaística referencial: Ricardo Rojas (biografia) (1999). Dario Y Rojas – Una Relación Fraternal (2002), um estudo sobre o poeta nicaragüense Rubén Dario, e La Luz Cicládica y Otros Temas Griegos (2004). Os livros foram traduzidos para o francês, inglês, italiano e português
Escritor que recebeu os mais importantes prêmios literários do seu país, jurista, membro da Academia Argentina de Letras, professor emérito da Universidade de La Plata, Horácio Castillo é também correspondente da Real Academia Espanhola e pertence ao conselho editorial da revista internacional de cultura Franchachela, de Buenos Aires, dirigida pelo escritor argentino José Kameniecki, líder de um movimento pela integração cultural da América Latina, que inclui, na Argentina, mestres do pensamento e da literatura, como o admirado scholar portenho José Burucúa, o escritor Jorge Ariel Madrazo, ao lado de poetas do tope de Norma Perez, Beatriz Schaeffer, Martínez Astorino, Edgardo Elois, Mireya Keller e do colombiano Ruben Rodrigué, diretor da revista Rampa.
Horácio Castillo, que traduziu para o espanhol, A Noite de um Dia, o livro de poemas deste articulista, num recente ensaio sobre a criação poética, citou Alain Bosquet: El poeta es el poema, e sobre si mesmo, confessou: ...me considero sólo un servidor de la Belleza. Um servidor de alta categoria, acrescente-se.
(Leia mais na edição nº 66 da Revista Continente Multicultural. Já nas bancas) |
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Por lobitogabriel - 22 de Junio, 2006, 7:11, Categoría: lecturas
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